700 dias de Grêmio na Veia

Em setembro de 2012 um amigo de faculdade me convidou para me aproximar do Grêmio e entrar para os Sócios Livres. Seria a minha primeira oportunidade de votar (já que eu já teria 3 anos de sócio-torcedor) e conhecer um pouco mais da realidade política e administrativa do Grêmio.

Nesses 700 dias aprendi bastante sobre a história, a política, o funcionamento administrativo, a realidade econômica e sobre as pessoas que dirigem o Grêmio.
Foram 700 dias em que meu gremismo foram elevados ao extremo.

Assisti jogos em vários estádios pelo Brasil. Saí do Engenhão crente que tínhamos uma máquina naquele 3x0 contra o Fluminense. Vi pela televisão a eliminação para o limitado Santa Fé. Saí da Arena animado após o jogo contra o Nacional-Col. Me decepcionei de novo contra San Lorenzo. Minha última esperança se acendeu ao fim do Grenal do Alan Ruiz, justamente para apagar de vez sentado no lotação voltando pra casa após a derrota pro Cruzeiro.

Nada disso é novidade na vida do torcedor gremista. Vivemos uma montanha russa de emoções. A ausência de títulos faz com que o torcedor se apegue a qualquer esperança, a qualquer Júnior Viçosa ou André Lima.

Mas essa não é a pior parte. Hoje, quando paro para refletir sobre esses 700 dias fico me perguntando se não perdi meu tempo. Se ter saído da condição de mero torcedor que desconhecia muito dos meandros e negociatas do dia a dia do futebol e ter chegado ao ponto de fazer parte de uma chapa para presidência do clube não tirou um pouco da minha crença de que o Grêmio pode voltar a ser um clube vencedor.

Nesses 700 dias ouvi muitas coisas. Mas uma pessoa que faz um lindo trabalho pelos gremistas me disse: "cuidado para não te decepcionar e perder a tua paixão". A cada dia penso nessa frase e temo que ela se transforme em profecia.

Talvez a minha maior decepção nesse período seja saber que existem várias pessoas, em diversos movimentos políticos, que gostariam de poder contribuir para o clube, mas os caminhos que permitem isso são tortuosos. Saber que muitas pessoas sem competência ou que não possuem a experiência ou conhecimento técnico para assumir certas posições (dentro e fora de campo) são alçadas a posições importantes.

A expectativa de um 2015 de contenção de despesas não me assusta. Inclusive, sou um ferrenho defensor de um choque de realidade nas finanças do clube. Não é mais possível pagar salários exorbitantes para jogadores. O que me deixa um pouco frustrado é saber que as coisas se movem muito devagar em muitas áreas que poderiam estar sendo trabalhadas para alavancar o potencial do clube. E aqui eu estou falando de diversas áreas, incluindo o marketing, que inclusive vem se destacando nos últimos anos. Mas, claro, o principal é o futebol. O produto de consumo dos gremistas.

Não é mais possível que tenhamos quase um time inteiro de jogadores voltando de empréstimo. Não questiono nem a qualidade dos jogadores. Mas sim a estratégia. Não posso crer que contratos como os de Moreno, Kléber e Barcos sejam vistos ex-ante como rentáveis ao clube. Ex-post temos certeza que foram grandes prejuízos. Não posso crer que investir em Cris, André Santos, Dida, Adriano, Welliton, Willian José, Vargas, Barcos, e tantos outros diante de uma simples classificação pra Libertadores seja racional do ponto de vista financeiro e estratégico.

Recentemente debati com amigos sobre a ausência da Libertadores no calendário do Grêmio em 2015. Como é possível que um clube como o Grêmio se veja engessado financeiramente todas as vezes que não participa de um torneio que em tese lhe rende poucos milhões (já que em geral é eliminado nas oitavas) e proporciona 4 jogos em casa gerando uma bilheteria que não chega nos cofres do clube? Não pode ser parte do planejamento estar sempre na LA. Não é realístico. Em alguns anos estaremos fora. Isso é natural.

Recentemente os conselheiros votaram pela suplementação orçamentária do período 2014. Ou seja, as contas não fecharam. Isso que o Grêmio participou da LA 2014! Como diz um amigo meu, quando o resultado financeiro não sai como o planejado é porque se planejou mal, se investiu mal ou ambos.

Como pode um clube se afastar tanto de seu torcedor? Como pode, depois de uma gestão muito fraca no âmbito do futebol, o sócio receber um email pedindo para antecipar as mensalidades? Hoje, o sócio do Grêmio só é lembrado quando chegam as eleições, quando o time "precisa do apoio" ou quando precisam que a mensalidade seja adiantada para fechar as contas. Hoje o torcedor do Grêmio se sente distante.

As entrevistas dos dirigentes via de regra colocam a culpa dos resultados nas arbitragens. É verdade que o Grêmio foi prejudicado em alguns momentos. Mas a maior verdade é que o Grêmio vem ano a ano cavocando seus próprios prejuízos dentro e fora de campo.

Os torcedores gostariam de ver um setor de comunicação que divulgasse as coisas boas, que se aproximasse dos sócios, que fosse realista com o futebol apresentado e que informasse as notícias verdadeiras do clube e condenasse os erros da imprensa. Nesse sentido, o crescimento a Grêmio TV foi um ponto positivo que merece grande destaque. Mas é preciso mais. E aí deve passar pelo reconhecimento das dificuldades e darmos fim ao coitadismo e ao fantasma da arbitragem.

Talvez o "caso Aranha" tenha sido o maior exemplo de como não conduzir este processo de relacionamento com a imprensa. Chegamos ao ponto de um integrante do Conselho de Administração ir para o Twitter dizer que o episódio não havia ocorrido e que tudo era uma "grande encenação do goleiro para fazer cera". Tal declaração foi usada contra o Grêmio no julgamento. O "caso Aranha" reflete o fato que na verdade o Grêmio perdeu para o Santos com a bola rolando. Novamente o Grêmio direcionou a energia para o adversário e para a arbitragem, até certo ponto corretamente, deixando de focar no mais importante: fomos inferiores dentro de campo.

E foi assim em diversos momentos ao longo do ano.

Meu momento de maior distanciamento foi no jogo Grêmio x Coritiba. Naquele dia coloquei um pijama e fiquei em casa. Neguei-me a ir ao estádio enquanto não fosse trocada a comissão técnica. Era claro e notório que algo precisava ser feito. Não deu outra. Perdemos para um dos piores times do campeonato. O técnico caiu naquele dia. Fiquei feliz de ter economizado uma grana. Infelizmente o problema não passava somente por um treinador fraco. Anos de investimentos astronômicos, inclusive desde a gestão Odone, resultaram em um time mediano que encontrava dificuldades contra qualquer adversário.

A gestão Koff então, diante de um pleito eleitoral trouxe um treinador incontestável aos olhos do torcedor e usou de todos os artifícios para fazer seu sucessor.

Vi-me dentro de uma situação inusitada. Eu poderia pela primeira vez contribuir par ao debate do clube. Foi assim que participei, junto com os Sócios Livres e conselheiros independentes do #ProjetoGrêmio. E participei ativamente. Trabalhei durante quase um mês e ajudei dentro do possível com toda a minha disposição.

Apresentamos uma alternativa, um conjunto de ideias e novos nomes para a política do clube. Alcançamos o nosso objetivo que era propor o que entediamos ser o melhor para o clube. Alegrei-me de conhecer muitas pessoas inteligentes, honestas e dispostas a ajudar o clube. Obviamente, me decepcionei com muitas que eram o antônimo de tudo isso.

Aproximei-me do Grêmio no intuito de compreender o funcionamento do Clube e tentar ajudar. Fiz tudo que estava ao meu alcance. Não sei se valeu a pena. Hoje, nosso clube está em uma condição financeira pior do que a 2 anos atrás. Fábio Koff entrega o clube ao seu sucessor fora da LA, com um elenco caríssimo e precisando cortar despesas, ou seja, pior do que recebeu de seu antecessor.

Eu não sei o que será da minha participação na vida do clube nos próximos dois anos. Esse post é meio que um desabafo. Espero poder contribuir um pouco mais. Mas não sei se terei empolgação. Não pela ausência da Libertadores, ou pelas dificuldades. Isso até me atrairia, mas pela falta de expectativa que a vida administrativa vá mudar e abrir espaço para novas pessoas. Acho que esse é o maior obstáculo na vida administrativa de um clube tão grande como o Grêmio. Um clube é feito de pessoas, mas muitas não conseguem se aproximar e contribuir para ajudar o Grêmio.

Não sei se viverei mais 700 dias de Grêmio na veia. Talvez o melhor seja assinar o pay-per-view.

Para finalizar esse meu breve desabafo, gostaria de agradecer a todos aqueles que me receberam nos Sócios Livres, aos colegas do #ProjetoGrêmio e aos amigos de outros movimentos que me ensinaram muito sobre o Grêmio. Em particular ao Sandro, que foi quem me trouxe pros Sócios Livres. Agradeço de coração a todos vocês.

Agradeço ainda aos colegas de Sócios Livres por terem confiado em mim para a tarefa de tocar as comunicações do movimento em 2014. Sei que poderia ter feito mais, mas algumas vezes faltou tempo ou empolgação.

Agradeço a todos os amigos de Grêmio que participaram ou me ajudaram a participar de vários momentos da vida do clube, como o Banquete de Aniversário, o Desejo Azul, churrascos na sede do Sócios Livres, reuniões, almoços com dirigentes, lecionar para as categorias de base, fazer o Tour da Arena, ir a jogos importantes em lugares privilegiados da Arena, ações de caridade organizada por movimentos e tantas outras atividades.

20140309_103551 IMG-20140926-WA004820140309_120848    20140430_215546PhotoGrid_139537308088920140513_14264920140410_205151

Deixo aqui também os meus votos de uma excelente administração ao Presidente Romildo e sua equipe. Que consigam trilhar um caminho de vitórias mantendo os pés no chão. Que as turbulências da Arena fiquem para trás e o Grêmio volte a ser um grande Clube. E que, principalmente, saiba reatar uma relação de proximidade com o seu sócios e torcedores. Muitos querem ajudar. É hora de abrir as portar e construir um novo futuro para o nosso clube.

Um bom fim de ano a todos e que o nosso Grêmio volte a ser vencedor em 2015!

Cristiano Machado Costa
OBS: Esse post é de Opinião, individual, e não corresponde ao posicionamento oficial do Sócios Livres.