As Olimpíadas de Londres, o Campeonato Brasileiro e as quotas de TV.

As Olimpíadas são um momento de congraçamento universal. O chamado espírito olímpicotoma conta de todos que, de alguma forma, gostam de esportes. Mas, é claro, tudo sem deixar de lado a competição em si. É em função da competição, aliás, que os recordes quebram-se ano após ano.

E foi relfetindo em Olimpíadas e em como a competição valoriza qualquer coisa que pensei no esvaziamento do Clube dos 13, na negociação “direta” dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro com a Globo (sem qualquer competição), e na renovação proposta pela mesma empresa até o ano de 2018.

Mas qual a relação entre os assuntos?

Permitam uma breve digressão.

O ano é 2007.

Ao contrário de todos os demais jogos olímpicos, a Rede Globo de Televisão tinha um contendor importante na disputa dos direitos de transmissão dos jogos olímpicos de Londres: a Rede Record.

Explicando. O Comitê Olímpico Internacional (COI) realiza concorrências públicas em cada um dos países destinatários pelos direitos de transmissão. Tudo transparente e mediante a entrega de envelopes fechados. Não há negociações “diretas”.

Assim, quando foram abertos os envelopes, a proposta da Rede Globo foi suplantada pela Rede Record e, pela primeira vez, em mais de trinta anos, aquela deixaria de transmitir as Olimpíadas em 2012.

Vitória de quem possui os direitos de transmissão e que confirma uma muito antiga regra de mercado: quanto maior a competição pela aquisição, maior o preço do produto.

A conseqüência disso, como em qualquer área do capitalismo, é que a existência de um novo player no cenário inflacionou os preços dos direitos de transmissão.

Para se ter uma idéia: a Rede Globo pagou pelos jogos de Pequim2008 US$12.000.000,00 (doze milhões de dólares), ofereceu e perdeu os jogos de Londres2012 com a oferta de US$48.000.000,00 (a Record pagou US$60.000.000,00) e, para não perder os direitos de transmissão do Rio2016, pagou US$180.000.000,00 (cento e oitenta milhões de dólares).

 Tudo porque havia uma novo competidor no mercado.

Logo, a Rede Globo, para não perder o direito de transmitir os jogos olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, se viu obrigada a desembolsar, nada mais, nada menos do que QUINZE VEZES MAIS do que havia pago pelos jogos de Pequim 2008 e TRÊS VEZES MAIS do que a concorrente pagara por Londres2012.

Corte.

O ano é 2011.

Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro se encerrariam em dezembro do mesmo ano. O Clube dos 13, congregação das maiores equipes de futebol do país, pretendia realizar uma concorrência pública em quatro módulos pelos direitos de transmissão do CB pelos próximos quatro anos (TV aberta, Pay per view, internet e telefonia). Com envelopes fechados e proposta mínima de 500 milhões de reais (a Rede Globo pagava 230 milhões até então).

Desta vez, novamente a Rede Globo não estaria sozinha e o player que “atrapalhara” os planos para Londres2012 estava de volta: a Rede Record prometia entrar “para valer” na concorrência pública.

Contudo, o final dessa história foi bem distinto daquele que redundou na valorização de 1.500% dos direitos de transmissão das Olimpíadas.

Ocorre que a Rede Globo resolveu negociar “diretamente” com os clubes pelos direitos de transmissão dos próximos anos. Assim, pagou o que entendia devido e ficou com todos os quatro blocos (TV aberta, Pay per view, internet e telefonia) sem precisar concorrer com ninguém. A saber: a falta de concorrência determinou que a Globo pagou o que quis pelo direito de transmitir o Campeonato Brasileiro, diferentemente do que ocorreu com os direitos de transmissão das Olimpíadas, cuja concorrência a obrigou a pagar o que vale o produto.

A pergunta é: será que foi melhor para os clubes ou para a Globo não permitir a concorrência com a Record? Ou de outro modo: a Globo faria força para boicotar a concorrência promovida pelo Clube dos 13 se isso não lhe garantisse lucro superior àquele que poderia obter com a concorrência?

Enfim, o Grêmio acreditou na Rede Globo e foi o primeiro clube a assassinar a idéia de negociação coletiva e afundar, de vez, a possibilidade de a Globo ver-se forçada a competir no mercado e, conseqüentemente, pagar mais pelo Campeonato Brasileiro. Tudo feito com o beneplácito do Conselho de Administração e a chancela do Conselho Deliberativo, diga-se de passagem.

O Grêmio, em síntese, ignorou a regra mais antiga de qualquer economia de mercado e, sabe-se lá por quais razões, não quis permitir que o novo player (a Rede Record) inflacionasse o mercado dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, mesmo que fosse do seu interesse receber mais pelo produto que oferece.

Se é certo que quanto maior a competição pela aquisição, maior o preço do produto, é justo afirmar que o Grêmio deixou de ganhar mais pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, seduzido que foi pelas “luvas” pagas pela Globo (em realidade, nada mais do que antecipação dos direitos, só que à vista) e que retiraram da competição quem poderia fazê-la pagar mais pelo produto.

Novo corte.

O ano é 2012.

O mesmo das Olimpíadas de Londres que, lá atrás, levaram à primeira grande derrota da Rede Globo para uma concorrente  em matéria de direitos de transmissão.

Talvez não por acaso, novamente a Rede Globo oferece “luvas” para que os clubes renovem seus contratos de direitos de transmissão, sem qualquer concorrência, até o ano de 2018.

Terá o Grêmio, por seus Conselhos de Administração e Deliberativo, aprendido a lição?

Vejam que, diferentemente de 2011, todos os indicadores informam que é natural e inevitável o aumento no preço do produto futebol no período pós Copa do Mundo no Brasil (exaxtamente o ano que termina o atual contrato). Também parece evidente que, para além da Record, a internacionalização do futebol brasileiro permitirá que novos competidores ingressem na disputa e “inflacionem” o produto que a Globo, a todo custo, pretende garantir até 2018, exatamente por tais razões.

 Enfim: a renovação dos direitos de transmissão sem qualquer concorrência interessa a quem pretende pagar menos ou a quem pretende receber mais?

A resposta a esta simples pergunta é que se deixa para os administradores e conselheiros do Grêmio responder.

Que siga o debate.

 Tiago Sulzbach

twitter: @tiagosulzbach