Carta aberta ao Presidente Odone

O documento, publicado originalmente em 14 de Dezembro de 2010,  manifesta nossa leitura sobre o atual momento do clube demonstrando a importância ímpar da próxima gestão e o papel que desejamos seja desempenhado pelo nosso Presidente.

Ilustríssimo Senhor Paulo Odone de Araújo Ribeiro

Na qualidade de Sócios Gremistas e de Membros do Movimento “Sócios Livres - Grêmio de Todos", que integrou a chapa 3 (Terceira Via Grêmio) na última eleição para o Conselho Deliberativo do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, e firmes no compromisso de sempre ajudar o Grêmio, independentemente de quem seja o seu Presidente ou de quais forças políticas o sustentam, vimos saudá-lo pela presente CARTA ABERTA.

V. Sa. será empossado para o seu 5º mandato como Presidente do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, serão findo este 10 anos comandando o Grêmio. Nas oportunidades anteriores V. Sa. foi eleito e aclamado perante o Conselho Deliberativo e também o primeiro a ser eleito pelo voto direto do Sócio. Sua última eleição, embora não tenha sido direta, foi legítima e legitimada pela obtenção de 100% das vagas disputadas, na eleição para renovação do Conselho Deliberativo de 2010, mesmo que a chapa então vencedora tenha contado com pouco mais de 50% dos votos válidos.

Nos seus dois primeiros mandatos (1987- 88 / 1989- 90) V. Sa. recebeu o Grêmio de Irany Sant’anna, ainda na era dos grandes títulos da Libertadores e do Mundial, em situação muito boa. Como resultado, foram conquistados 4 títulos gaúchos, a primeira Copa do Brasil e o retorno à Libertadores. Bem diferentes foram seus mandatos seguintes (2005-06 / 2007-08), em que V. Sa. recebeu o Grêmio de Flavio Obino, em meio à maior crise da sua história, na Série B e com as finanças gravemente comprometidas. Foi um trabalho árduo de restituição da auto-estima da Torcida, para recolocar o Grêmio no seu devido lugar. Volta obtida com sofrimento desnecessário, mas da forma que só a camiseta tricolor é capaz. No campo, 2 titulos gaúchos o retorno à Libertadores com a disputa de uma final. Fora de campo, o início do Projeto Arena e o episódio Britto deram o tom de um final de gestão preocupada com o futuro patrimonial do Grêmio mas imersa em forte instabilidade, potencializando a divisão e a polarização da política gremista.

Reconhecemos as imensas dificuldades deste novo mandato, que ainda sofrerá as conseqüências da parceria com a ISL, maior origem dos problemas administrativos e financeiros desta última década. Por outro lado, na conjuntura atual a possibilidade de reversão dessa crise está posta. A gestão Duda Kroeff deixa o Grêmio para V. Sa. em situação infinitamente melhor do que em 2005, (fruto também de sua gestão anterior), com o Condomínio de Credores reduzido, o Quadro Social ampliado, a Arena em obras, um plantel qualificado, o técnico querido por todos na casamata e de volta à Libertadores. Já a conjuntura política é bem distinta, pois na última eleição a polarização de forças foi substituída pela hegemonia dos Grupos que se elegeram com a ajuda da sua figura e hoje o apóiam. Essa ampla maioria no Conselho Deliberativo representará uma Pax Gremista.

As condições estão todas à sua disposição para que o V. Sa. estabeleça um marco e deixe um legado importantíssimo para a História do Grêmio. Não apenas como mais um Presidente do Grêmio (algo que, por si só, já seria um grande mérito), mas pela oportunidade única de mudando atitudes, quebrar paradigmas com a adoção de um novo modelo administrativo, eleitoral e estatutário. Acreditamos que a opção que V. Sa. fizer nos próximos meses para sua gestão pode superar e ir além de um simples descerrar de fita ou de um discurso de inauguração. Estamos no possível momento da grande virada do Grêmio, em que a instabilidade ficará no passado e o Grêmio seguirá em direção ao seu destino manifesto de manter-se como clube grande e vencedor.

Para tanto, é preciso agir como um "Estadista", agrupar forças, manter os bons quadros da recente gestão, compartilhar e delegar decisões e fazer funcionar o Conselho de Administração conforme o estatuto aprovado em sua última gestão. A propósito do Estatuto, inclusive, seria de enorme importância a submissão de um texto mais evoluído à aprovação da Assembléia Geral, nos termos do art. 59, II, do Código Civil Brasileiro (já com a redução das cláusulas de barreira, fortalecimento das funções do Conselho Deliberativo e maior participação da Assembléia Geral).

Ainda, é premente e notória a necessidade de formar novos quadros, novas lideranças para o futuro do Grêmio. Não se trata aqui de desmerecer o passado de nossos grandes dirigentes e ídolos, mas de honrá-los construindo um futuro melhor. Nos dias de hoje, não apenas no futebol, mas em toda a sociedade, a cada dia há a necessidade de se reinventar, de superar as adversidades, de buscar soluções criativas. Sabemos que um clube do tamanho do Grêmio toda mudança demanda certo tempo. Porém, há de se começar, e logo.

Se V. Sa. fortalecer o papel do Conselho Deliberativo, fazendo operar as respectivas Comissões Permanentes, promover a necessária Reforma do Estatuto com participação da Assembléia Geral, implementar a reforma eleitoral, promover novas lideranças, profissionalizar a gestão, implementar uma política de prestação de contas acessível aos sócios, puser em pauta todos processos parados na Comissão de Ética, “enterrar” os esqueletos da ISL e construir e inaugurar a Arena (mantendo os direitos e garantia de acesso aos sócios) demonstrará ter a estatura necessária, para se colocar ao lado de grandes Presidentes como Vanzelotti, Dourado e Koff, mesmo sem os títulos dentro de campo; e sendo com eles, melhor ainda. Do contrário mais uma oportunidade de evolução do Grêmio será desperdiçada.

V. Sa. pode contar conosco para o que der e vier.

SÓCIOS LIVRES