FIFA põe fim ao “jogador-pizza”?

Um estudo realizado pela consultoria KPMG mostra que cerca de 80% dos jogadores da Série A do Campeonato Brasileiro estão total ou parcialmente nas mãos de investidores. Hoje no Brasil (em quase toda América Latina e em alguns países europeus) temos o “jogador-pizza”: atletas cujos direitos econômicos são retalhados, divididos entre dois ou mais proprietários, que investiam no jogador pensando em lucrar em uma eventual transação futura.

Ocorre que, no final de setembro de 2014, o comitê executivo da Fifa anunciou que a entidade máxima do futebol vai banir a participação de investidores e fundos de investimentos nos direitos econômicos de jogadores. E agora,  em dezembro passado, a Fifa anunciou que, a partir de junho de 2015 a chamada third-party ownership (participação de terceiros na relação trabalhista clube/jogador) não será mais permitida.

A meu ver, louvável e relevante a decisão da Fifa. Concordo com aqueles que consideram a medida benéfica. Entendo que no longo prazo teremos o fortalecimento econômico dos clubes, com a valorização do direito sobre atletas como ativos esportivos, e não como ativos financeiros, como percebemos nos últimos anos.

Na atual conjuntura, parece-me que os clubes ficam em risco e à mercê dos interesses econômicos de agentes e de investidores que, em inúmeros casos, não têm qualquer comprometimento com o esporte. A toda evidência, os dirigentes tinham uma frágil posição de defesa do clube frente aos interesses dos empresários. Isso sem falar no “lado negro” de algumas parcerias, como se percebe nas palavras do dirigente corintiano Antonio Roque Citadini (também Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo):

“... o sistema de parceria com os fundos e empresários estava gerando um estado de completa promiscuidade entre os diretores dos clubes (que formalmente deveriam defender os interesses da agremiação) e dos parceiros que, de fato, comandavam os negócios. Em todos os clubes, em menor ou maior grau, há ‘investidores’ que estão bem relacionados com a diretoria e conseguem sempre grandes e bons negócios”.

“... o que vemos em todo futebol são casos de dirigentes que, subitamente, tornam-se empresários ou agentes associados a fundos e investidores, num conflito de interesses inadmissível”. Roque Citadini (http://blogdocitadini.com.br/?p=5278)

Pois bem, neste cenário de pouca transparência nas negociações (inclusive com pagamentos de comissões a empresários) e de “fatiamento” dos direitos econômicos dos atletas, com jogadores tendo seus direitos vinculados a empresas, não a clubes, quem sai favorecido? Neste ciclo de dinheiro pouco fiscalizado, de caminhos tortuosos, sem fronteiras de países e passando por muitos intermediários, não há grande chance de nos depararmos com “lavagem de dinheiro”? Bem, não à toa que uma das revistas semanais de maior prestígio no mundo, “The Economist”, criticou duramente o futebol por ser uma “máquina de lavagem de dinheiro e fraude” (...) e que se percebia, no Brasil, “pouco interesse das autoridades governamentais e do futebol para combater esse tipo de prática”.

O problema é que no Brasil, sai uma lei num dia e no outro dia já tem uma falcatrua sendo preparada. Por aqui, vão inventar alguma coisa para driblar tudo, para burlar a lei, com o acobertamento inclusive de grande parte da mídia. Aliás, li entrevistas de “executivos” que, mesmo antes de saber como seria o veto, já estavam planejando “driblar a Fifa”!

Falcatruas a parte, analistas e executivos do mercado do futebol afirmam que uma parte da atual sobrevalorização salarial dos atletas está relacionada diretamente aos recursos aplicados pelos investidores: o clube que deixa de gastar em investimento de direitos pode gastar mais em salários. Quando o clube passar a destinar seus recursos para contratar direitos, terá de diminuir o seu custo de salários. Ou seja, em consequência da menor liquidez, tudo indica que teremos uma acomodação para baixo de valores salariais e de transferência.

Enfim, creio que a medida adotada pela Fifa favorecerá as agremiações com boa administração estratégica e, principalmente, as que: (1) bem equacionarem o binômio receitas/despesas (equilíbrio financeiro); (2) conseguirem sensibilizar atletas sobre o cenário de transição, convencendo-os da necessidade de readequação dos contratos à nova realidade; (3) forem capazes de investir com seriedade e eficiência nas respectivas bases de formação profissional (leia-se, qualificação das categorias de base e das comissões técnicas).

Neste contexto de transição, espero que a conjuntura político-administrativa do Grêmio, após profunda e importante reflexão destes novos paradigmas negociais, busque as melhores soluções e promova os ajustes necessários à retomada das vitórias e dos títulos.

Leandro Vidal Nogueira

Conselheiro do Grêmio 2010/2016