MUDAR PROCESSO ELEITORAL PARA MUDAR O GRÊMIO. OU, CONTINUAR COM O MESMO DOS MESMOS

Este texto, escrevi e publiquei em 14/10/2011, por ocasião da eleição para parte do Conselho Deliberativo, em que o grupo Sócios Livres veio a público para concorrer. Volto a repeti-lo, por considerar que não perdeu a atualidade. A primeira parte do título é a original. A segunda, acrescentei diante do resultado de ontem. Para que mude realmente alguma coisa, o trabalho deve continuar, sem interrupção e sem ficar ligado a um eventual processo eleitoral. E os Sócios Livres, com a boa votação de ontem, fica com este desafio pela frente.

Aparentemente, o problema do Grêmio resume-se às pessoas que o dirigem e o administram. Nessa óptica, a solução seria a troca dos dirigentes e das instâncias deliberativo-fiscais, à época do processo eleitoral. No entanto, não é o que ocorre. E não ocorre porque o processo eleitoral não permite. Um paradoxo: aquilo que deveria oportunizar a mudança aprisiona-a na sua própria execução. Essa equação é que precisa ser refeita nos seus termos.
Podemos pensar uma forma eleitoral que abranja a totalidade dos associados que tenham condição de votantes. E que possa representar efetivamente o associado em suas diversas instâncias. Não se trata de nada original nem de invenção eleitoral ou, se quiserem, eleitoreira. Mas que signifique uma mudança de paradigma representativo e de universalidade. Vejamos.
Não se modifica a estrutura atual: Direção (CA), Conselho Fiscal (CF), Conselho Deliberativo (CD). Mas devem ser estabelecidos os cargos a serem preenchidos no CA: Presidente, Vice-Presidentes ou Diretorias (com suas denominações) e em que número. Para o Conselho Deliberativo é questionável a imensa quantidade atual de membros conselheiros; para isso, pode-se sugerir um número máximo de 100 (cem) Conselheiros.
Em concreto: para chapa da Direção (CA), serão preenchidos os cargos com seus respectivos nomes concorrentes, devidamente explícitos; tantas chapas quantas forem organizadas. A mudança: cada chapa deverá ter o referendo de 100 (cem) associados em dia e não pode haver sobreposição de nomes. Para o CF, serão aceitas tantas chapas quantas forem apresentadas, informando os nomes dos concorrentes e seus respectivos suplentes. Como para a anterior, cada uma deve ter o referendo de 100 (cem) associados em dia, sem sobreposição de nomes entre as chapas.
Resta ainda o mais problemático dos pontos: o CD. Primeiro, redução do seu número para um que possa atender as necessidades do Grêmio, não dos seus conselheiros. Pode-se estimar em 100 um número adequado, que possibilite a flexibilidade necessária para suas tarefas. Segundo: os candidatos a conselheiro apresentam-se individualmente, desde que referendados por 100 (cem) associados em dia. Já se vê que fica abolida a votação em chapa para o CD. Isso torna possível acabar com o compadrio eleitoral e vincula cada conselheiro a um grupo de associados, que ficam, assim, mais aptos a fazerem sugestões e cobranças. A lista com os nomes aptos a concorrerem fica disponível ao eleitor para sua escolha. Cada eleitor pode votar em apenas um (1) candidato a conselheiro. Os primeiros cem (100) nomes mais votados são os conselheiros eleitos.
E vamos ao ponto talvez menos problemático, mas da maior significação: votação universal: a eleição pode ser realizada por três modos: 1) em urnas disponíveis no Estádio, mediante devida identificação do eleitor (carteira social e de identidade); 2) via Correios: ao Grêmio cabe confeccionar as chapas concorrentes aos cargos diretivos, fiscais e deliberativos, independentes uma das outras, bem como a lista de todos os candidatos a conselheiro e enviar via Correios a todos os associados aptos, com envelope selado e sobrescritado para retorno dos votos. 3) via Internet: o Grêmio deve enviar correspondência a todos associados informando sobre essa forma de voto e solicitando retorno para endereço eletrônico definido e específico da opção do associado eleitor e de seu e-mail. De posse da escolha do eleitor por essa modalidade, enviará ao e-mail informado pelo associado eleitor um nome de usuário e uma senha, que será usada na cabine eletrônica de votação. A votação se dará especifica e individualizadamente para Direção, Conselho Fiscal e Conselho Deliberativo.
Uma Comissão Eleitoral é escolhida para esses procedimentos, que tem toda autonomia para definir datas, prazos, normas e determinações e utilizar a estrutura administrativa do Clube, que lhe será disposta sem restrições, de forma a atingir plenamente suas prerrogativas e tarefas institucionais (estatutárias).
A mudança importante estará na forma pela qual se indicarão os integrantes de cada uma das três instâncias. Pode-se prever uma dificuldade muito grande a ser desencadeada contra qualquer proposta que vise modificar o estado de coisas atual. Para isso é que tem sentido uma Oposição constante, consistente e insistente, que se coloque acima dos tradicionais apelos por um gremismo que têm sido inócuo na ação, mas cheio da chamada paixão. Paixão que, por sinal, não tem levado a lugar nenhum e que é uma condição de fácil manipulação. Na verdade, o que representa o Grêmio? A bandeira, as três cores, o escudo, uma história, os sentimentos que a permeiam. Grêmio, assim, é um símbolo, é o que representa esses elementos. O símbolo, por tais atributos, não necessita explicação – ele é apreendido de forma imediata, não-racional, ainda que necessite da razão para o seu entendimento. Dificilmente é explicável e objeto de ensino, mas é claramente apreendido e compreensível. Esse é o Grêmio que deve ser percebido e só assim poderá atualizar-se sempre sem perder sua condição. Se for mantido apenas naquilo que desperta como desejo, paixão, lentamente perderá sua condição e se extinguirá.
Em linhas gerais, essa talvez possa ser a forma de se modificar o atual panorama administrativo-deliberativo do Grêmio, contemplando um novo horizonte organizacional e de participação associativa. Rupturas ocorrerão, mas nada se modifica sem elas. Ficar como está, já não é mais possível.