Os Preços da Arena?

Todos os gremistas vivemos atualmente um momento ímpar na história do tricolor. Ao final de 2012, será inaugurada a nova Arena, a nossa nova casa.

Contudo, mesmo estando a lidar com um negócio de cinco centenas de milhões de reais, a Grêmio Empreendimentos ainda não esclareceu o plano de negócios, a política de preços a serem aplicados no novo estádio.

Assim e dada a referência sempre realizada com as grandes potências da Europa (o padrão da Arena efetivamente nada deixa a desejar aos estádios do Velho Mundo), resta-nos especular sobre a questão.

E faremos a ponderação de maneira leiga porém atenta a um dos dados fundamentais para a avaliação de um mercado consumidor: a renda per capita de cada um dos países e as suas relações com os preços do ingresso de futebol.

Notem que pagar 39 euros por um ingresso (R$ 94,38) pode parecer muito a um brasileiro (que tem renda per capita anual de R$ 20.000,00), mas nem tanto a um inglês, que possui renda anual média de R$ 69 mil. Em síntese: o custo de determinado produto é considerado mais ou menos valioso para o consumidor conforme a sua renda. Assim, relacionando os dados relativos aos preços de ingressos com os da renda per capita de cada país, temos uma leiga aproximação do custo efetivo do ingresso a partir da realidade brasileira.

Dito isto, em recente reportagem sobre os ingressos no futebol mundial, os preços médios mais caros da Europa são os seguintes[1]:

1) Manchester United: 39 euros;

2) Barcelona: 27 euros;

3) Bayern de Munique: 27 euros;

4) Inter de Milão: 24 euros;

5) Benfica: 22 euros;

6) Marselha: 20 euros.

Curiosamente, um representante de cada um dos países europeus mais influentes no mundo do futebol (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, Portugal e França).

Traduzindo os valores para o câmbio de hoje, 12/12/2011 (R$ 2,42), temos os seguintes preços:

1) Manchester United: R$ 94,38;

2) Barcelona: R$ 65,34;

3) Bayern de Munique: R$ 65,34;

4) Inter de Milão: R$ 58,08;

5) Benfica: R$ 53,24;

6) Marselha: R$ 48,40.

Mas, notem: esses são os preços médios MAIS CAROS da Europa e, portanto, servem como exemplo do TETO que se pode considerar um valor razoável para um ingresso de futebol.

Além disso, cuidam-se de países, em sua maioria, com renda per capita três vezes maiores do que a do Brasil. Por aproximação, estes são os dados:

1) Inglaterra: 38 mil dólares/ano;

2) Espanha: 29 mil dólares/ano;

3) Alemanha: 35 mil dólares/ano;

4) Itália: 30 mil dólares/ano;

5) Portugal: 21 mil dólares/ano;

6) França: 33 mil dólares/ano.

Com base em tais informações (e considerando a cotação do dólar de hoje: R$ 1,84), poderíamos relacionar o preço médio dos ingressos com a renda per capita de cada um dos países de origem para compará-los ao Brasil (11 mil dólares/ano). A renda per capita é um índice interessante de usar para este efeito, justamente por refletir a capacidade de consumo dos cidadãos de determinado país.

Assim, relacionando os preços mais caros da Europa e os comparando um a um, tendo por base a renda per capita do Brasil, numa regra de três simples, temos uma boa medida do que custa para um europeu o ingresso de futebol a partir de nossa realidade:

 

Clube País Renda (R$)

Ingresso(R$)

Média/Brasil

Man. United Inglaterra 69 mil 94,38 R$ 27,35
Barcelona Espanha 53 mil 65,34 R$ 24,65
Bayern Alemanha 64 mil 65,34 R$ 20,41
Inter Milão Itália 55 mil 58,08 R$ 21,12
Benfica Portugal 38mil 53,24 R$ 28,02
Marselha França 60 mil 48,40 R$ 16,13
Média 56 mil 64,13 R$ 22,90

 

Em síntese, tendo por base a renda per capita, o ingresso de futebol mais caro da Europa custa para o torcedor inglês do Manchester United (que tem renda anual média de R$ 69mil) R$ 27,35 se comparado a um brasileiro (cuja renda anual média é R$ 20mil aproximadamente), bem se vendo que não se trata de valor que comprometa as finanças da maior parte deles.

Da mesma forma, a média dos seis ingressos mais caros do Velho Continente custaria, numa regra de três simples com o valor da renda per capita do Brasil (11 mil dólares/ano ou 20 mil reais/ano) o singelo valor de R$ 22,90.

Então, tendo por base esses dados não-científicos, fica bem claro que os ingressos praticados na Europa podem parecer caros a um brasileiro. Contudo, se os comparamos com a renda per capita de cada um dos países de origem, nem tanto.

E, diante disso, a conclusão que fica é a de que os estádios estão sempre lotados na Europa porque o ingresso de futebol é barato aos padrões de renda europeus, ainda que possam parecer, em números absolutos, caros para os padrões brasileiros.

Assim, acreditamos que seria um erro do Grêmio transportar para a Arena os preços dos clubes de ponta da Europa sem analisar a capacidade de consumo dos seus torcedores e associados.

Vale ressaltar que o preço médio do ingresso praticado no último jogo do Grêmio no Olímpico no ano de 2011 foi de R$50,00[2] (Cadeira Central: R$ 60,00, Cadeira Lateral: R$50,00 e arquibancada R$ 40,00), o que representa significativos 20 euros, o mesmo preço do sexto ingresso mais caro da Europa (Marselha).

Enfim, mesmo que os custos da Arena sejam altos, parece evidente que a comparação de renda per capita com o valor dos ingressos induz à conclusão que é mais benéfico ao clube cobrar valores semelhantes aos hoje praticados, ainda que pouco superiores – e, consequentemente, garantir uma lotação média maior do estádio –, do que simplesmente aumentar os preços e manter lotação média inferior por conta disso.

A pretensa e propalada elitização dos preços não trará os resultados que se imagina, justamente porque a renda média do brasileiro não permite que se obtenha os mesmos resultados havidos na Europa (modelo e argumento de justificação para o aumento de preços).

Por fim, como já adiantamos, o presente texto não tem a pretensão de ser científico, mas apenas e tão-somente a de trazer novos elementos ao debate público sobre a política mais adequada de preços a serem praticados na Arena.

Que siga o debate!

 

 

Tiago Mallmann Sulzbach

Marcos Almeida