OUVIR OU ASSISTIR, EIS A QUESTÃO

Título estranho para o Blog. Consideremos esta pequena experiência que cada um pode fazer. Simples e de resultados surpreendentes. Começa com uma pergunta: por que as torcidas organizadas não vaiam? Foi o que me impulsionou a elaborar uma hipótese. Comecei a observar as diversas torcidas, além das organizadas. Surpreendeu-me verificar que elas funcionavam quase em uníssono, diferentemente destas que apenas cantavam e agitavam pelo seu clube, não no aplauso, mas na vaia, no apupo, na impaciência. O que haveria de comum aqui? Foi a segunda pergunta. Observar foi a etapa seguinte. Daí resultou a hipótese: o rádio companheiro. Óbvio que seria necessária a corroboração. Passo à frente: ouvir as emissoras de rádio e assistir às de TV nos seus programas esportivos. Segunda-feira, início do trabalho de campo: notícias de treinos, de vestiário, de departamento médico, privilegiadas, de fontes seguras e sempre inominadas, opiniões, comentários, entrevistas capciosas, intrigantes, mal-dirigidas. Todos buscando o “furo”, a primeira-mão, a audiência, afinal. Na base, a velha “busca da verdade”, da informação acreditável, do fato nu e indisputável. Qual verdade, porém? E assim sucessivamente, terça, quarta, quinta, sexta-feira, sábado, domingo, antes, durante, após treinos ou jogos. Escalações prováveis, possíveis, preferenciais, equivocadas, inadequadas, cheias de números esotéricos, que nem os magos ousariam decifrar: 10-1, 6-4-1, 3-5-3, 4-5-2, 3-5-2, 1-7-3 e assim por diante. Números que enfeitiçam, que impressionam, que se impõem, nos subjugam pela imponência dos argumentos. Todos divulgadores experientes, conhecedores do assunto, diante de nós, míseros mortais.

Dia de jogo, todos ao estádio. Com o radinho, claro. Chegamos ao terceiro ponto da hipótese: verificar a relação entre as manifestações da torcida com o assunto irradiado. Uma constatação: a atitude do torcedor vai se modificando conforme as notícias, as suposições e os comentários pré-jogo. Quando surge a escalação da equipe na tela eletrônica, percebe-se claramente a influência de tudo que havia sido dito e escrito na semana. Os malditos recebem a vaia comum, mas não das organizadas. O modelo continua durante o jogo, tanto mais o rádio no ouvido, tanto maior o aplauso ou a vaia, totalmente relacionados à opinião dos repórteres/comentaristas da preferência.

Leitor: faze essa verificação também. Fiz isso durante algum tempo - fugindo completamente ao meu hábito de não ouvir/ler nada a respeito de futebol – levando radinho na orelha e acompanhando a reação do público de acordo com a transmissão. Perceberás que, quando vês uma falta não marcada ou um erro arbitral e o narrador/comentarista/repórter não os referendam, abandonamos a nossa visão; o inverso também funciona assim – se não vemos a falta ou o erro de arbitragem, mas a equipe de transmissão os afirma, esta passa a ser a nossa percepção. É interessante a experiência.

A tese que se estabelece a partir de tais constatações: vamos ao estádio ouvir o jogo. Por outro lado: estamos deixando de acreditar no que vemos para confiar no que ouvimos. Insidiosamente somos dirigidos a levar em conta o que os outros nos dizem mais do que afirmar o que vemos. Exemplo. Em caso de dúvida sobre uma jogada, o que fazemos? Levamos o rádio ao ouvido para saber o que o outro nos afirma; ou perguntamos a alguém ao lado o que se disse pelo rádio. Entretanto, o que foi dito foi o que realmente aconteceu? Vale dizer: não gostamos da dúvida, queremos a certeza, mesmo que seja a de outrem. Ouvir não necessita muito de pensar. Ver implica em ter de pensar, de duvidar e de muitas vezes não termos como resolver a dúvida. Ver pede a razão própria, por isso é mais difícil. Outro exemplo. Durante um jogo, desses que ouvi para minha “pesquisa”, o técnico retirou um jogador considerado intocável pela crítica especializada, ao meio do primeiro tempo. Imediatamente a equipe da emissora mostrou seu profundo desagrado; logo após, as vaias surgiram, como por encanto. A emissora, feliz, aumentou sua pontuação de audiência. No intervalo, cobrado em entrevista, o técnico informou que o atleta pedira para sair por dor aguda em uma das pernas e foi diagnosticado estiramento muscular. Ninguém comentou o equívoco, nem apresentou retratação. E o técnico, este passou por incompetente.

Voltemos a aprender a ver. A confiar em nossa percepção, em nossa capacidade, em nosso julgamento, e descobrir o prazer de ver o jogo (os fatos) como eles se apresentam para nós. Tem certeza: ver o jogo é muito melhor do que ouvi-lo. Pode não parecer, mas quando ouvimos, deixamos de ver. E aumentamos a probabilidade da injustiça, porque a certeza, essa não é a nossa, é a do outro, a quem delegamos o poder de ver. Será que alguém precisa nos dizer o que estamos vendo? Ou, o que devemos ver?