Perdendo Dentro e Fora de Campo

Mais uma vez perdemos o Grenal. Para tristeza de cerca de 8 milhões de apaixonados gremistas, o Tricolor não sabe o que é vitória em grenais há nove jogos. E “faixa no peito”, já faz um bom tempo que não temos. Afinal, onde está o verdadeiro Grêmio que lutava sempre por títulos e que orgulhava sua torcida por sua garra e sua força?

Diz o gremista Humberto Gessinger, numa de suas composições: “entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos”. Olhando para o Clube, complementando o grande músico tricolor, diria mais: passa ano, muda gestão e os “planos” tem nos conduzido a resultados pífios. Infelizmente já temos uma geração de jovens, filhos da Nação Gremista, que não tiveram a oportunidade de ver o Tricolor conquistar um grande título. Aliás, neste novo século, pasmem, até mesmo Gauchão, tão desdenhado, só ganhamos apenas 4, enquanto nossos rivais lograram 10 títulos. Para aumentar o quadro desolador, nas arquibancadas vivemos tempos de aumento da violência, de brigas entre torcidas, de confrontos com a Brigada Militar, de operações de guerra para assistir Grenal na casa do adversário, de perdas de mando de campo em razão de confusões ocorridas nos jogos, etc. Diante deste cenário ruim, pergunto, então: o que fazem os nossos dirigentes para reverterem este longo “inverno de derrotas” e para melhorarem o ambiente das arquibancadas? O que fazem os conselheiros do Clube para mudarem este mesmo cenário tenebroso, que envolve insucessos dentro e fora de campo?

Quem acompanha a vida política do Grêmio da última década, percebe que o exercício de poder se alterna sempre entre alguns poucos agentes políticos. Mesmo após o início da democratização do Clube, com a participação dos sócios nas eleições para o Conselho Deliberativo e de Administração, o modelo da velha política tricolor persiste, porquanto as relações de poder continuaram sendo ditadas, controladas e regidas pelos mesmos dirigentes históricos de outrora. Leiam o noticiário político do Clube e perceberão que os ilustres dirigentes continuam sendo os artífices do presente e do futuro, não abrindo espaço para grupos e movimentos que preguem novos rumos, desvinculados das figuras históricas do Tricolor.

No âmbito administrativo, ao que transparece, as gestões se sucederam enclausuradas apenas em suas próprias convicções e opiniões, pouco dialogando com os demais atores envolvidos na política Tricolor. Quase não há projetos de gestão de longo prazo, pois tudo é repensado a cada eleição para dar certo em pouco tempo, numa corrida contra o relógio do próximo calendário eleitoral.

Infelizmente, ao que parece, planejamento estratégico do Clube é mera peça acadêmica; o profissionalismo, pregado por muitos, apenas engatinha; e os mecanismos de controle de gestão são, quase sempre, ineficazes ou inexistentes.

E no órgão deliberativo do Clube, que deveria representar o associado e a coletividade de torcedores gremistas, encontramos mais distorções. A meu ver, uma clara evidência desse desvirtuamento ocorreu na última reunião celebrada no dia 11 de agosto, logo após o insucesso do Grenal 402, quando o CD foi convocado para apreciar relevantes alterações estatutárias que, notoriamente, necessitam de quórum qualificado (161 votos), para aprovação. Ocorre que, mesmo diante da necessidade de comparecimento expressivo dos representantes dos associados, apenas 168 conselheiros, de um universo total de 330 (titulares e suplentes) compareceram à sessão. E para piorar, ao longo da sessão, com a saída prematura de alguns conselheiros do recinto, tivemos que interromper as deliberações por falta de quórum.

Diante deste contexto preocupante, pergunto: até quando os sócios vão eleger conselheiros que tratam com descaso a tarefa institucional de representá-los junto à administração do Clube? Até quando os associados continuarão reelegendo candidatos ao conselho que têm 0% de presença (vide estudo apresentado no site: http://migre.me/kZQjW) nas sessões deliberativas do Clube? Se a questão é “status”, interesse de contar com o suposto apoio de políticos de “expressão” e de empresários de “sucesso”, então que se crie um “órgão consultivo especial” de auxílio à administração, especificamente para abrigar e condecorar estes gremistas com reconhecida influência política, empresarial ou social. Do jeito como está não podemos continuar. Para deliberar, representando o associado, mostra-se imprescindível o interesse e a presença na vida do Clube.

Além do patente descaso de muitos conselheiros com a participação nas sessões do CD, percebo outro flagrante desvirtuamento da missão institucional que lhes foi conferida no Estatuto: deveriam representar os interesses e o pensamento do associado, na busca das melhores soluções para o Clube; porém, a prática tem demonstrado que muitos segmentos da política Tricolor colocam seus interesses acima dos interesses institucionais, com o nítido propósito de alcançar mais poder e elevar, hierarquicamente, apenas “os seus”, independente da qualificação dos mesmos. Infelizmente, nesta espécie de fratricídio velado e sem tréguas, perdemos todos, principalmente a instituição Grêmio.

Voltando a um exemplo da última reunião, ainda quando havia quórum, foi rejeitada a redução da cláusula de barreira que, atualmente, prevê que somente são eleitos os representantes das chapas que alcançarem o mínimo de 20% (vinte por cento) dos votos válidos. Ora, nos moldes como estabelecido no Estatuto, a referida cláusula desvirtua e malfere a representatividade democrática do associado junto ao Conselho. É uma verdadeira “cláusula de exclusão”, antidemocrática e que desconsidera a opinião e o voto de milhares de associados. Pois, então, foi levada à apreciação do Conselho proposta de redução da cláusula de barreira para 10%, numa louvável tentativa de diminuir a distorção gerada pela malsinada regra estatutária no resultado eleitoral. Resultado? Mais uma vez rejeitada a redução!

Na minha ótica, a escolha feita pelo conselho mais uma vez demonstra a pouca valorização da voz do associado junto aos órgãos institucionais do Clube. Não quero crer que esta decisão tenha por finalidade precípua dificultar o crescimento e/ou surgimento de novos atores políticos na vida do Clube. Espero que esta rejeição tenha sido fruto apenas de um equívoco momentâneo de avaliação, que será corrigido brevemente.

Afinal de contas, se queremos que o sócio tenha voz ativa na gestão, se pretendemos contar com o apoio dos sócios no engrandecimento do Clube, enfim, se pregamos que o associado “venha pro Grêmio”, mostra-se incompatível e desarrazoado desvalorizar sua opinião e seu voto apenas porque “não atingiu 20%” do total. Não podemos continuar com este processo de aviltamento e de desconsideração do voto de milhares de associados.

Enfim, como já percebido por muitos, vivemos uma grave crise institucional. A imensa torcida Tricolor clama por mudanças, dentro e fora de campo. Resta evidente que precisamos de novos paradigmas, de novos valores a nortear a administração e a política Tricolor. Enfim, precisamos de dirigentes que busquem e construam, em conjunto como os demais atores políticos, as melhores soluções para o Clube. Retomando a letra do Gessinger, “somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.”

Saudações Tricolores à imensa torcida Gremista, merecedora de dias melhores.

Leandro Vidal Nogueira
twitter: @vidalnogueira