Profissionalização

Um dos assuntos mais latentes entre aqueles que discutem o futuro do Grêmio e almejam resgatar os seus momentos mais gloriosos é a profissionalização do clube.

A realidade do futebol mudou muito no século XXI - pode-se dizer, a partir do advento da Lei Pelé. O futebol virou um negócio grandioso, houve uma evolução gigantesca nas receitas dos clubes envolvendo cifras milionárias, e a TV passou a ditar as regras do jogo. Tal crescimento mudou a maneira de gerenciar o negócio. Para o sucesso, ele passou a necessitar de um tratamento empresarial e profissional, o qual ainda engatinha ou inexiste na maioria dos clubes brasileiros.

No Grêmio não é diferente. Muitas das ações e decisões tomadas dentro da instituição ainda são advindas de uma época "romântica" do futebol, quando era feito exclusivamente por pessoas dedicadas e apaixonadas pelo clube. O time de futebol representava em campo a garra e a raça dos gremistas que superavam-se pessoalmente pela satisfação de elevar o nome do Grêmio (no que tiveram inteiro sucesso).

A Lei Pelé introduziu no futebol brasileiro uma novidade que o Grêmio ainda não se adaptou completamente: o fim da lei do passe. O trauma deixado com o abandono de Ronaldinho tem seus reflexos até hoje no atabalhoado relacionamento com os empresários (caso parcialmente repetido com a saída de Jonas no início de 2011). O clube ainda espera que os jogadores tenham com ele uma identificação extrasensorial ao invés de uma relação altamente profissional e compensadora para ambos os lados para que por aqui permaneçam e deem o seu sangue.

Outro complexo que influenciou as decisões gremistas na última década diz respeito à fracassada parceria com a ISL no início dos anos 2000, fazendo com que muitos entendessem que o clube precisava manter suas origens e não virar uma "empresa", continuar amador, na base apenas da raça e da vontade, contrariando as tendências modernas da profissionalização para o sucesso no futebol.

E com estas experiências, o clube resistiu à irreversível necessidade de evolução profissional nos anos subsequentes, acumulando insucessos. Os resultados de 2011 e a atual posição no Campeonato Brasileiro são um reflexo direto disto.

Estou lendo o livro Soccernomics, cujo cenário de fundo para as teorias econômico-futebolísticas é a Europa, particularmente a Inglaterra, onde o futebol encontra-se num patamar muito avançado de profissionalização dos clubes. O livro demonstra claramente como a profissionalização pode existir no futebol e conviver com a paixão dos torcedores.

Dentre outros assuntos do livro, destaca-se a ineficiência do mercado de transferência de jogadores, que é apontada como uma das principais oportunidades a serem exploradas pelos clubes para alcançarem o sucesso. Não é difícil fazer um paralelo de algumas destas ineficiências com a realidade do Grêmio:

* O desperdício de dinheiro com a constante troca de treinadores e as dispensas e contratações exigidas pelos mesmos

* A falta de um grupo qualificado e diverso para tomar decisões no futebol

* O alto investimento em jogadores velhos e supervalorizados em detrimento de jogadores que estejam por atingir o ponto alto de suas carreiras (a partir dos 20 anos)

* A falta de avaliação do valor de mercado dos jogadores e o "apêgo" aos mesmos quando de oportunidades de venda por preços claramente mais altos do que o valor de mercado

* A falta de uma política de reposição de jogadores que permita a venda dos mais valorizados

* A falta de preparação para auxiliar jogadores problemáticos que tenham qualidade diferenciada

* A ausência de um auxílio de adaptação de jogadores à cultura do clube e da cidade de Porto Alegre (especialmente os estrangeiros)

Será preciso um alto nível de profissionalização e criatividade do clube para superar as ineficiências comentadas no livro e a diferença de receitas que deverá aumentar cada vez mais em relação aos clubes do eixo Rio-SP. O modelo espanhol, onde Barcelona e Real Madrid reinam absolutos, é um exemplo do que as vultuosas receitas dos maiores clubes podem infligir aos que não se organizarem.

Não é mais possível não ter especialistas nas funções estratégicas do Grêmio. Torcedores abnegados sem a devida capacitação e com outros compromissos profissionais não serão capazes de darem conta da demanda exigida pelos novos tempos. É preciso mais do que pessoas remuneradas, é preciso profissionais 100% dedicados e qualificados para estas funções (profissionalizar não significa simplesmente remunerar as pessoas por suas tarefas).

O Grêmio clama por todo este movimento para construir novos capítulos em sua imortal história de glórias e conquistas.

 

Fernando Zuchetto Maisonnave

Sócio Patrimonial desde 2002

Gremista desde 1981