Uma lasca de paixão…

No meu modo de entender, a manchete de Zero Hora esteve perfeita: para esquecer Ronaldinho.

Mesmo após a absolvição de Guerreiro, que a derrota de R10 ontem no Olímpico seja o último dos esqueletos desse armário criado no início dos anos 2000.

Feita a catarse coletiva, que voltem as vitórias.

Ah, para fazer jus ao título, transcrevo o texto do David Coimbra que saiu na Zero Hora de hoje, 31.10.2011.

"GRÊMIO 4X2 RONALDINHO

Uma lasca de paixão

 Pela primeira vez, Ronaldinho mostrou que é capaz de sentir dor. Pela primeira vez, ontem à tarde, depois de o Grêmio bater o Flamengo com uma virada histórica por 4 a 2, no Estádio Olímpico, quando estava perdendo por 2 a 0 no primeiro tempo, pela primeira vez depois de uma década inteira de conflito, uma década em que Ronaldinho jamais demonstrou qualquer réstia de emoção, positiva ou negativa, pelo clube em que ele foi criado, em que foi criado seu irmão mais velho e no qual trabalharam seu pai e sua irmã, pela primeira vez na carreira Ronaldinho deixou à mostra um pedaço de mágoa, uma lasca de paixão.

Foi no momento em que ele saía de campo apressado, abatido e derrotado. Os quase 45 mil gremistas continuavam nas arquibancadas soterrando-o com uma vaia sólida, chamando-o de pilantra, de mercenário. Os repórteres o aguardavam na linha lateral, ansiosos. Queriam saber o que ele sentia debaixo dos escombros daquela vaia que reboou toda a tarde pelas paredes de pedra do Olímpico. Então, Ronaldinho emitiu a frase que pode ser usada como um galardão pela torcida do Grêmio, uma frase que pretendia demonstrar indiferença, mas que demonstrou o contrário. Demonstrou o ressentimento do amante desprezado que, agora, quer desprezar. Balbuciou Ronaldinho:

– Pra quem tá acostumado com a torcida do Flamengo isso não é barulho.

Ecce homo. Eis o homem. Ronaldinho, finalmente, abriu o coração. E foi, sim, graças ao barulho feito pela torcida do Grêmio. Barulho que começou antes do jogo. A vaia estremeceu as arquibancadas já quando o locutor do serviço de som anunciou a escalação do Flamengo, deixando o nome de Ronaldinho para o fim. A Brigada Militar proibiu a entrada de faixas ofensivas a Ronaldinho, mas torcedores conseguiram burlar a vigilância e as brandiam, enquanto gritavam “pilantra, pilantra!” Num dos cartazes se lia: “Quem não tem caráter não merece ser chamado de gaúcho”. Com esse estado de espírito, o Hino Rio-Grandense foi entoado com orgulho vibrante, ao passo que o Brasileiro mal foi ouvido em meio aos apupos.

Com a bola rolando, porém, Ronaldinho não deu indícios de que o clima de desamor o perturbava. Logo aos três minutos acertou uma cobrança de falta no travessão. Ele atuava com a categoria que o consagrou como um dos maiores jogadores do planeta: dava toques de primeira e lançava os atacantes com precisão.

O Grêmio atacava com algum ímpeto, mas a falta de qualidade nas conclusões mantinha o placar fechado. Aos cinco minutos, Douglas chutou forte e Felipe espalmou. Aos 16 minutos, a torcida viu-se representada legitimamente em campo: Saimon, que, como Ronaldinho, cresceu dentro do Grêmio, derrubou-o na intermediária. Foi uma falta dura, punida com cartão amarelo. Saimon xingou o desafeto dos torcedores, torcedor que ele também é. Das arquibancadas, os seus iguais aplaudiam, agradecidos. Saimon, ali, mostrou que é gremista.

O Grêmio continuava atacando, mas o Flamengo tocava a bola com frieza e aproveitava-se das subidas de Julio César pelo lado esquerdo. Aos 23 minutos, a qualidade dos jogadores do Flamengo surtiu efeito. Thiago Neves rolou a bola pelo meio da defesa do Grêmio, Rafael Marques escorregou e Deivid entrou livre na área para marcar. O Flamengo era insinuante. Era perigoso. Aos 35 minutos, Thiago Neves chutou da entrada da área, a bola desviou em Fernando e entrou: 2 a 0. A torcida gritou:

– Miralles! Miralles!

Ronaldinho sorria, dava toquinho para os lados, estava no melhor dos mundos, até que Marquinhos levantou a bola da intermediária, Mário Fernandes ajeitou com o peito dentro da área e André Lima bateu cruzado para descontar. O gol fez o Grêmio descer ao vestiário com certo alento.

No intervalo, Celso Roth corrigiu a defesa. Tirou Saimon, que tinha um cartão amarelo, e colocou Adilson. Gilberto Silva, que no meio-campo jogava com lentidão exasperante, foi perfeito na zaga-central. E, no meio-campo, o camisa 10 exibiu toda a sua capacidade técnica. Não o camisa 10 do Flamengo; o do Grêmio. Douglas começou a ditar o ritmo da partida com passes inteligentes e maliciosos. Aos cinco minutos, Douglas parece ter encarnado em André Lima. O autointitulado “Guerreiro Imortal” dominou a bola na meia-lua, enfiou uma janelinha, hoje chamada “caneta”, em Renato e chutou de chapa. Golaço.

O Grêmio havia se assenhoreado do jogo. O Flamengo não criava mais. Aos 30 minutos, Escudero entrou sozinho na área e Felipe conseguiu defender. Aos 32, Marquinhos chutou quase da marca do pênalti para fora. E, aos 35, Douglas recebeu a bola pela direita, negaceou, fez que ia passar e chutou: 3 a 2 para o Grêmio. Ronaldinho reclamou do árbitro, levou cartão amarelo, e a torcida uivou de alegria.

Para arrematar a vitória perfeita, vitória de superação, de garra, como gosta a torcida do Grêmio, para arrematar esse jogo que foi quase um título, um jogo em que o Grêmio voltou a ser o Imortal Tricolor, em que o Grêmio jogou como o velho Grêmio, para arrematar essa obra do futebol que teve tudo o que torna o futebol emocionante, como paixão, tragédia, desespero, alegria e glória, para arrematar esse grande jogo Miralles entrou em campo, como pedira o torcedor, e fez um lindo gol. Melhor do que isso, só a declaração de Ronaldinho. Uma declaração para fechar uma tarde de primavera que vingou 10 anos de inverno.

DAVID COIMBRA